Cheguei ao balcão do barzinho e pedi um suco de maracujá. A moça que atendia tinha os olhos grudados do celular. Levantou-se sem me olhar, abriu a geladeira e encarou brevemente as latinhas empilhadas, como se não tivesse certeza do que procurava. Aí perguntou: “qual sabor?”. “Maracujá”, repeti, buscando com os meus olhos os dela, sem sucesso. Ela pegou o dinheiro e voltou para a tela, sem notar quando me afastei, deixando meu “obrigado” flutuando sobre o balcão, sem resposta.

Comecei a notar à minha volta. Uma mulher aos risos andava pela calçada, com a atenção toda no Whatsapp. Na mesa de um restaurante, cinco pessoas, cinco cafezinhos fumegando em frente delas, cinco celulares, um na mão de cada um. Estavam juntas, só que não. O sinal abriu e os carros demoraram a andar – percebo atrás de vários volantes cabeças abaixadas, olhando para o previsível objeto no colo. Não são só eles: é boa parte do mundo, mais da metade dos humanos. Estamos mais desatentos do que nunca. Eu também.

E aí eu me pergunto: será que é coincidência que essa escassez global de atenção esteja ocorrendo neste momento da história, em que evidentemente a humanidade está abusando do direito de fazer más escolhas? Ou será que estamos falando de causa e consequência? Destituídos do maior poder do nosso cérebro – a atenção – estamos distraidamente destruindo nosso futuro e caminhando, sem notar, rumo ao abismo?

Vivemos hoje a era da economia da atenção. Os negócios que mais movimentam dinheiro no planeta não são mais processar petróleo ou fabricar carros. Das sete maiores empresas do mundo , seis operam no mercado de atenção – ou fabricam máquinas sequestradoras de atenção, como é o caso da Apple, ou sistemas para essas máquinas, como a Microsoft, ou comercializam a atenção dos outros para anunciantes, como Google e Facebook, ou convertem atenção em transações financeiras, como Amazon e Alibaba. Juntas, elas valem quase 5 trilhões de dólares.

A revolução que elas causaram foi espetacular, a ponto de ser difícil imaginar a vida sem elas. Mas as consequências são brutais também, e ainda não temos total compreensão delas. O neurocientista Sidarta Ribeiro, numa entrevista recente , explicou que o cérebro humano tem uma pequena estrutura chamada locus ceruleus, que a evolução desenhou para disparar quando algo inesperado acontece, mobilizando nossa atenção e nos preparando para reagir. Por milênios, essa estrutura disparou, na maioria da pessoas, de vez em quando, uma ou outra vez ao dia, apenas quando algo incomum acontecia. Pois a vida atrás da tela do celular está superestimulando o tal ceruleus, fazendo-o disparar várias vezes por minuto, a cada “like” que pisca.

Isso nos vicia, e também nos deprime. Estamos vidrados no celular – a revista Superinteressante deste mês cita uma pesquisa com motoristas em São Paulo, segundo a qual 93% deles admitem que é inadequado olhar o celular enquanto dirige, mas 80% olham mesmo assim (e estamos falando só dos que admitem). Superestimulados, os cérebros do mundo estão mergulhando em ansiedade e depressão.

E, com isso, perdemos a capacidade de focar – e, mais ainda, a capacidade de juntar grupos de pessoas focadas para trabalhar juntas e resolver problemas. Essa capacidade é o maior superpoder humano – é a única explicação para que estes primatas fracotes e pelados que somos nós sejamos capazes de grandes empreendimentos, como construir catedrais, universidades, civilizações.

Para mim, é evidente que esses fatores todos, que estão relacionados uns aos outros – a desatenção, a desconexão com outras pessoas, a dependência, a ansiedade, a depressão – são parte importante da explicação que ajuda a entender o atual colapso global da qualidade das nossas decisões.

Isso fica bem manifesto na política. No mundo inteiro, há uma tendência de entregar as maiores responsabilidades a completos incapazes e despreparados. Não é só que estamos escolhendo panacas para nos governar porque estamos desatentos. É também que acabamos elegendo gente violenta e perigosa, porque esses parecem ser os únicos capazes de mobilizar alguma atenção, num mundo distraído.

A depressão também parece ser um fator: ela faz com que nos importemos menos com os outros, e se transforma facilmente em raiva e ressentimento. Outra consequência é que, fissurados em nossas redes sociais, acabamos elegendo gente viciada também, que passa muitas horas nas redes sociais, e é incapaz de resolver problemas no mundo real. É impressionante a quantidade de tempo que os políticos contemporâneos passam em polêmicas teóricas no twitter – impossível que eles consigam focar em resolver problemas complexos.

Difícil pensar numa saída para isso. Há soluções individuais, claro: buscar uma relação mais saudável com a tecnologia, limitando o uso do celular e abandonando as redes sociais. Mas isso não resolve o problema: a imensa maioria de nós não vai fazer isso, até porque a dependência impede uma fuga em massa.

Eu fico pensando que a democracia precisa ser reinventada, para descobrir formas de garantir que as decisões e as tarefas realmente importantes sejam realizadas por gente focada. Há métodos para isso. Conheço bem um deles – o da empresa brasileira Mesa , que, para realizar grandes projetos em pouco tempo, geralmente a serviço de corporações, cria um ambiente isolado, sem celulares, de trabalho intenso e focado. Talvez, na democracia do futuro, as decisões realmente importantes precisem ser tomadas não por multidões distraídas, mas por pequenos grupos diversos e representativos de cidadãos, profundamente focados. Não sei se daria certo. Mas sei que precisamos colocar toda nossa escassa atenção nesse problema, antes que ele nos destrua.

Retirado de: https://epoca.globo.com/opiniao-perdemos-capacidade-de-focar-24026148